quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Grandes paixões

...A banda Legião Urbana entrou em sua vida de uma forma avassaladora! Passava e repassava as fitas K7 pra escrever as letras e aprender aquelas longas canções  que tocavam seu coração e outras  músicas que diziam sobre coisas que nunca havia ouvido antes...
Mergulhou nos livros de Paulo Coelho, conheceu o mundo da magia, dos anjos, das coisas invisíveis.
Se entregou à literatura!

Sophia andava por várias turmas de amigos, não tinha turma fixa... Gostava de andar com todo mundo e era aceita. Mas tinha umas poucas amigas que tinham um lugar especial.
Começou a se soltar um pouco mais, a beijar na boca com mais tranquilidade, a falar bobagens...

Num domingo a tarde foi visitar uma amiga, sentaram em um banco próximo a casa dela, foi quando se deparou com um rapaz de short preto, sem camisa, de sorriso lindo e um olhar que a fez estremecer por inteiro!  
Se apaixonou perdidamente pelo Anderson! E ele a provocou o quanto pôde...
Sophia estava no final dos seus  treze anos... Festa de junho, a mesma que coroou a Nossa Senhora no ano anterior...
No último dia da festa ela e Anderson trombaram várias vezes durante o dia... Ele a paquerando, ela com vergonha, mas gostando de estar ali com ele...
Nesta mesma noite... cheiro de pólvora, multidão, ela atrasada pra voltar pra casa... Ele foi atrás dela e exclamou:" Ei moça, me espera!"
 E então a  roubou um beijo!
Sophia ficou ali paralisada, não conseguia raciocinar, afônica, besta! Um sonho!...
Ele foi embora da cidade no final da festa e ali começou uma tortura sentimental que durou anos a fio... 
Um sentimento que doía, que ardia, que a fazia sonhar, delirar...
Se falaram algumas vezes ao telefone... ele sempre tentando seduzi-la, ela cada vez mais apaixonada...

O tempo passou...
 E um louco começou a tentar se aproximar dela de todas as formas, fazia loucuras!E ela, morrendo de medo do seu pai ficar sabendo daquelas formas exageradas que ele fazia pra conquista-la... Confusa, pq era apaixonada por outro... E curiosa pra saber como seria ficar com aquele doido, o Hebert...
Acabou se rendendo, ficaram uma, duas, três e muitas outras vezes!
Moreno, alto,com um jeitinho gostinho, com uma boca linda e cheio de lábia!
Estava ela ali, apaixonada por dois homens!
E se lembrou do livro Brida onde ela encontrava em sua mesma vida suas duas outras partes... Se lembrou também o quanto ela sofreu indecisa nesse livro, Sophia, no momento, mesmo não sabendo se seriam duas almas gêmeas dela, ficou confusa.
Gostava um pouco mais do Anderson, mas talvez pelo fato dele estar longe e ser um amor um pouco impossível...

Sophia foi se envolvendo cada dia mais...
Quando percebeu, já pensava um pouco menos no Anderson, o pensamento em Hebert tornou-se mais forte e constante.
Foi pedida em namoro no final de  tarde de uma sexta-feira... sentiu uma emoção indescritível!...
Mal sabia ela o que enfrentaria dentro de casa...
Seus pais não aprovaram, começaram  a prende-la um pouco mais em casa, a vigiarem...
Mas o casal apaixonado dava um jeito de se encontrar nem que fosse por 5 minutos!... Nem que ele precisasse pular uma janela alta da casa de uma amiga dela pra ir embora despistado... Nem que fosse debaixo de uma marquise durante um temporal... Se viam!
Quando ela ganhava bombons, os comia de madrugada pra não deixar vestígio!!!
Com ele ela aprendeu a  não ter mais medo do seu pai, se tornou uma adolescente rebelde a ponto de mostrar sua rebeldia na forma de se vestir, nas músicas, no jeito de falar, de agir... Encarava o pai e às vezes jogava algumas indiretas durante uma brincadeira ou outra.
Mas se sentia diferente, como se pudesse ser mais ela, como se rompesse um pedaço do que segurava aquela força que sentia presa dentro dela.

Ela e seu pai tinham muitos problemas, principalmente porque ele também era seu professor de matemática, então tinham um convívio diário em casa e no colégio.
Ela não sabia lidar com ele, ele não sabia lidar com ela...
Ele muito autoritário, ela querendo expor seus pensamentos, suas vontades...
Ele inflexível, ela querendo desfrutar do mundo que estava conhecendo...

As férias  de dezembro chegaram... tornou-se difícil se encontrar com o Hebert nesse período devido seu pai também estar de férias...
Quanto ao Anderson, fazia um bom tempo que não se falavam, mas ainda pensava nesse vez em quando.
Mas como a vida dela era uma confusão sentimental e carnal... Tinha que acontecer alguma coisa... E assim, pra sacudir a vida da Sophia veio de São Paulo um amigo que não via ha tempos passar o mês de férias e que se hospedava em frente a sua casa, o Jordano...
 Numa tarde, enquanto conversavam, ele roubou um beijo... E o beijo se encaixou perfeitamente!... Foi um mês diferente... ele era romântico de uma forma que nunca havia visto, envolvente, divertido e com um perfume delicioso!
Se curtiram, sem culpa!

No final das férias, Sophia foi passar uns dias em BH, e ela logo deu um jeito de falar com sua paixão, o Anderson, que morava lá...
 Conseguiram, por menos de uma hora, ficarem juntos, conversar, se beijar... Foi o suficiente pro cheiro dele se impregnar na roupa e lembrança dela.
Na despedida, ficou feliz e triste, uma confusão de sentimentos que ela não conseguia entender. Mas sabia que demoraria vê-lo novamente.

A vida amorosa da Sophia era confusa... Duas paixões, um amigo que havia mexido com ela de alguma forma...
Ela era uma explosão de sentimentos e se permitia viver todos os tipos de paixões.
E pra aumentar a confusão, durante a reunião pra crismantes, conheceu um seminarista. Jarbas...Bonito, inteligente, cheiroso e que ficou horas conversando com ela.
Procurou por Sophia nos dias seguinte, se sentavam em frente a igreja e conversavam horas a fio... Até que um dia ele falou que, se ela aceitasse namora-lo, abandonaria o seminário.
Sophia ficou paralisada. Jamais imaginou um pedido desse.
Deu uma desculpa e foi embora...
Ele também foi embora da cidade no dia seguinte...
Tempos depois recebeu uma carta dele...quando a abriu, havia um pedaço de pano com o perfume dele e, mais uma vez o pedido de namoro. Ela não o respondeu, e acreditou que a falta de resposta seria a resposta. De fato foi, ele nunca mais mandou nada, não a procurou.

Um amigo do seu pai foi passar uns dias na casa dela e esqueceu um livro, Sophia logo cresceu o olho: Sexo e ciúmes.
Levou pro seu quarto e começou a ler, escondendo sua capa.
Se tratava de uma moça da cidade que ia passar uns dias na fazenda e lá ela encontrou seus dois primos...
Sophia sentia muitas coisas que não sabia explicar ao ler esse livro, ficava hipnotizada, molhada, trêmula!
O leu várias vezes, quase ja sabia o livro de cor...sonhava com aqueles episódios que narravam minuciosamente cada toque. Ela desejava que tivessem figuras pra entender melhor tudo que constava ali! Mas tinha que se virar com sua imaginação.


Sete meses se passaram da primeira vez que se encontrou com o Hebert... Ganhou seu primeiro presente do dia dos namorados: um colar com um coração de pedra azul, lindo! Se sentiu nas nuvens quando ele o colocou em seu pescoço...
Quis contar a sua mãe, dividir sua felicidade... Mas quando tentou fazê-lo percebeu que não seria possível, guardou então toda aquela emoção pra si. Foi dormir sorrindo, explodindo de emoção!
Um tempo depois, em junho, poucos dias antes de completar seus 15 anos  ela decidiu se entregar a ele.
Perdeu a inocência que restava e sua virgindade de uma só vez... Ela nunca havia visto um homem nu, sabia por alto devido suas aulas de educação sexual e pelo livro que leu várias vezes.
Mas  achava que acontecia lindamente como nas novelas,no livro... os dois ali deitados juntinhos,  se acariciando, quietinhos...
Não conseguiu romantizar aquele momento de descobertas, sentimentos, dor e movimentos que não estavam no script dela.
No livro não falava nada de dor, nem de movimentos... e sobre sexo oral, nunca tinha ouvido falar!
Mas contando que ela estava com quem queria estar e fazendo o que queria fazer, ela se sentiu feliz, se sentiu mulher, se sentiu especial.
...Acordou procurando mudanças em seu corpo que as pessoas pudessem notar...Passou uns três dias sem conseguir olhar nos olhos de ninguém, o mesmo tempo que ficou sangrando...
Sentia que havido tomado a decisão certa ao escolhê-lo!
Com o Hebert a Sophia conseguiu se libertar, conheceu o sexo, se conheceu... se sentiu mais forte, mais bonita, sensual! Aprendeu a se amar mais! Sentia prazer, mas ainda não sabia como chegar ao orgasmo, como fazer pra tudo funcionar... Mas curtia todo o momento que estavam juntos! E estavam sempre dando um jeito de se verem, não importava o lugar!
Com o passar do tempo, como todo relacionamento, foi se desgastando, os pais dela começaram a pegar muito no pé, foi o inicio de um relacionamento conturbado, principalmente por fatores externos.


No final desse mesmo ano o pai dela pegou sua agenda onde havia alguns poemas... Desconfiou de tudo, questionou a Sophia e ela confirmou, foi sincera.
 Foi uma noite longa e horrível, cheia de acusações que jamais esperou ouvir.
 Mas se manteve firme.
Ela sabia que aquela decisão era dela, que ela fez porque quis e porque gostava do Hebert.
Seus pais arrumaram um jeito de  manda-la estudar em Montes Claros para afasta-los... Mal sabiam que ela e Hebert estavam terminando.
Foi uma época conturbada...

No inicio do ano, antes do término das férias, Sophia foi morar em Montes Claros num pensionato misto.
Novas pessoas, novo colégio, novo mundo e aquela sensação de liberdade que jamais sentiu (apesar de não ser totalmente assim, devido ser menor de idade, tinha que avisar aos donos sobre onde estava indo... mas tinha bem mais liberdade que antes).
Fez rápido novas amizades no colégio e no pensionato... depois do seu namoro com o Herbert ela aprendeu melhor a se comunicar, a se enturmar.
Enfrentou dificuldade em muitas matérias... Saiu de um colégio público em sua cidade pra um colégio particular... Não haveria de ser diferente.
Sufoco!!!
Descobriu que gostava de Bilogia, Física, Química, Redação e Literatura! Era fascinada pelos professores e pelas aulas!
Foi ao cinema pela primeira vez, Titanic! Se emocionou e voltou outras tantas...
Se viciou em filmes... alugava pra passar os finais de semana que não queria ir pra casa de alguma amiga.
Acabou descobrindo uma fita VHS escondida atrás do vídeo cassete...colocou a fita... era um filme pornô!
Pegou a fita escondido, ligou pras três amigas e foram pra casa de uma delas assistir a fita!!!
Chegando na casa da amiga, ela tinha pedido pra organizarem um super lanche pra gente...colocamos a fita quase sem volume, trancamos as portas... E o assistimos tomando suco, comendo biscoitos, rindo e em outros momentos, fissuradas! Uma das amigas ainda era virgem, começou a dizer das coisas estranhas que estava sentindo, nos divertimos nessa tarde com muitas gargalhadas, tesão, comentários desconsertantes e muito lanche!
Rebobinou a fita  deixando-a exatamente no mesmo lugar que estava, colocou onde a encontrou, ninguém poderia notar que ela viu aquela fita!
Mas agora entendia porque se amontoava todos os meninos do pensionato na sala de tv!!!

Nesse tempo acabou se aproximando do Freitas que morava no mesmo pensionato que ela,ele dava sinal de que era a fim dela, mas não fazia nada...
Até que no dia namorados, ele deu um beijo nela seguido do pedido de namoro. Sophia aceitou ao pedido, mesmo achando estranho a forma que foi...
E, como já se esperava, ele ligou pro pai dela pra pedir permissão, o pai dela não aprovou o pedido...
Mas como ela morava longe e a obediência não era o seu forte, namorou assim mesmo.
Os dois eram muito diferentes, ela gostava de sair, ele gostava de ficar em casa estudando.
Ele cursava medicina, era inteligente, estudioso, dedicado, carinhoso, divertido. Ela cursava o segundo grau, doida pra descobrir o mundo, adorava sair, se divertir, ir ao cinema, dançar.
Não estava apaixonada, mas era uma companhia pra ela naquele novo mundo, ela era feliz quando estavam juntos.
Nas férias não voltou pra casa... o pai a obrigou ficar por la. E assim ela fez, passou as férias assistindo filme, curtindo as novas amizades, conhecendo a cidade.

Um ano se passou...
O relacionamento se mantinha... Ele gostava muito dela, cuidava dela, era companheiro e não se importava quando saia com suas amigas, ela passou a gostar mais dele, a admirá-lo e a ficar mais junto dele.
Foi um ano bom, cheio de novidades no colégio, aprendeu a estudar, a se concentrar. Saia com os amigos, namorava e ia a igreja aos sábados com o namorado, depois tomava exatamente uma cerveja com ele, mesmo ainda sendo menor de idade.
Ela fazia tudo pra deixa-lo feliz e se sentia feliz também.

O ano  de 1999 chegava ao fim, meses apreensivos pra prestar vestibular, muita cobrança do seu pai, do colégio e dela mesma...
Se formou, teve uma bela formatura, uma festa linda que quase não aproveitou, o namorado não a deixou dançar.
Então curtiu da forma que foi possível com seus convidados e amigos. Saiu da festa, pegou um ônibus e partiu rumo a BH pra prestar seu primeiro vestibular.
 E logo veio o resultado do primeiro exame: ela havia passado pra fisioterapia na cidade de Campo Belo, no sul de Minas!
Ficou extremamente feliz, os pais dela vibraram, o namorado também, apesar de saber da dificuldade de um namoro à distância.
 Sophia preparou sua mudança sem saber como tudo ia continuar... Ela sabia que seria uma vida diferente, mas não tinha noção nenhuma de como exatamente seria. Ficou mexida por deixar os amigos e namorado e mais uma vez partir, e ao mesmo tempo queria muito começar essa vida acadêmica.
Estava apreensiva pra tudo começar...
Foi de Montes Claros pra sua cidade, Minas Novas, onde passou 2 meses de férias, curtiu muito com seus amigos...seu pai deu um pouco da  liberdade que ela sempre desejou após passar no vestibular.
...E então chegou o dia de se mudar pra Campo Belo...

Primeiras descobertas...

...E então, na capital de Minas Gerais, no início de uma tarde fria de julho no ano de 1981 ela chorou pela primeira vez nesse mundo!...
 Nascia ali uma canceriana com ascendente em escorpião...
Iria, certamente, chorar muitas outras vezes por raiva, nervosismo, tristeza, saudade, felicidade e drama!
Seus pais residiam numa cidadezinha do interior, pra onde a levaram alguns dias depois do seu nascimento.


...Sophia foi crescendo em meio a muito amor... primeira filha, primeira neta... Parecia que o mundo estava a sua espera!
 E como já era de esperar...chorou, chorou muito!!!!... Noites a fio brincando com o sono da sua mãe, que paciente e às vezes impacientemente, morta de cansaço, a mantinha no colo pra aliviar suas cólicas.
Depois chorou de fome devido o leite da sua mãe não saciá-la. E assim ganhou uma "mãe de leite", onde se esbaldava naquela mama gigante antes mesmo do filho dela matar a fome... Era gulosa e com um choro imponente!
O tempo foi passando...
Sophia nunca gostou muito de bonecas, mas se agarrava ao seu boneco Joãozinho e ao seu trator amarelo.
Adora brincar com areia, lama e qualquer coisa que se sujasse.
Vaidosa!... Andava sempre de unhas pintadas de vermelho, sua cor preferida!

Adorava  ir pra roça do seu avô nadar, comer cenoura da horta, se lambuzar de manga e seguir seu pai e seu avô por onde fossem. E ainda havia duas moradoras que faziam todas as suas vontades!...Era mesmo muito paparicada!
No final da tarde, antes de voltar a cidade, seu avô a colocava no chiqueiro, junto aos porcos, e dava banho em todos juntos de mangueira! Pra ela tudo era diversão!...

A pequena Sophia foi desenvolvendo e se tornou uma menina de voz travada, medrosa, de olhar curioso, insegura, com a imaginação aguçada, e com uma espécie de força interna que ela precisava domar. Era feliz, mas era contida, não tinha mais traços da imponência que nasceu com ela. Talvez por seu pai ser muito bravo, ela o amava, mas tinha muito medo dele.
Era um pai  carinhoso, brincalhão, rígido e  realmente muito bravo. Sua mãe... doce, carinhosa, cuidadosa e tinha seus momentos de fúria!...

Aos 7 anos viveu seu primeiro amor de infância! Era um menino lindo, de sardas, cabelos lisos e claros, boca avermelhada e super carinhoso! Trocavam balas, conversavam e brincavam juntos.
Ele a fazia sorrir, e quando o via de longe sentia suas bochechas queimarem.

Sophia descobriu sua sexualidade muito cedo, desde os seus cinco anos aproximadamente gostava de tocar seu corpo e nos momentos em que era flagrada por algum adulto, vinha, irremediavelmente, a repressão: "Isso não pode fazer!" "Tire sua mão daí!" Isso é pecado!"
Mas nunca foi muito obediente... e não via problema algum em sentir uma coisa gostosa que não sabia explicar.

Quando não estava brincando, estava dançando e cantando com direito a coreografias e microfone (pente) ou assistindo aos infinitos desenhos que passavam na TV.
Fazia pequenas maldades, como qualquer outra criança e também roubava manga, goiaba, carambola, jabuticaba... Eram frutas em demasia na sua cidade!!!! Cambuim, jambo, umbu, cagaita...

Teve uma infância agarrada a sua família, ela adorava essa coisa de ir todos os dias visitar os avós, brincar com os primos, ouvir as histórias dos tios, fazer piquenique no rio no final de semana...


As brincadeiras foram mudando... passou a gostar de ir ao rio nadar (e não se importava em ir sozinha), costurar roupas para as Barbies, brincar de restaurante e de se maquiar. Passava horas brincando sozinha, com a imaginação há mil!...
Aprendeu que era divertido ficar só em alguns momentos. Outrora brincava com os amigos de escolinha, andava de bicicleta, jogava queimada...

Ainda muito travada, medrosa e insegura...  remoía sentimentos dentro dela e acabou explodindo  algumas poucas vezes...
Uma delas, se irritou com a moça que cuidava dela, mas já tinha muita raiva acumulada... fincou um lápis na perna dela e correu chorando pro banheiro... Numa outra vez colocou fogo no cachorro de pelúcia, quase pegou fogo no quarto dos seus pais...( Foi então que passou a gostar de fogo... Cozinhava tudo, até lama! Não é a toa que leva a marca de uma queimadura no seu joelho esquerdo).
Sophia não conseguia falar as coisas boas e ruins que sentia, e não tinha espaço pra tentar fazê-lo. Seus medos, angustias, tristezas, raivas iam se remoendo dentro dela...
Levou algumas surras, quase unicamente do seu pai, e não entendia a mudança que isso traria, só a deixava com mais raiva, mais medo, mais travada...

Tentou se  socializar... participou de desfiles, ganhou como Rainha das Bonecas e Rainha do Inverno... Mas era sempre  estressante todo o processo de pedir votos e sua mãe sempre se irritava com ela, e ela  sempre chorava (escondido) de raiva e arrependimento por estar participando.
Participou de gincanas, dançou lambada, desfilou mais uma vez, dançou de paquita! Foi ficando mais desinibida...
Aos sábados fazia guizado (comida de verdade) num fogão a lenha na vizinha, onde tinha uma amiga, ou na roça, onde tinha seu próprio fogãozinho a lenha. Gostava de enfeitar os pratos e mostrar a todos antes de comer.
Num sábado de guizado foi carregar um banco de sucupira, ele escapou de suas mãos e caiu  sobre seu pé esquerdo...
Sentiu muita dor, chorou, se desesperou com aquela unha ficando roxa quase que imediatamente!
Cuidaram de sua unha, colocaram papa de farinha de mandioca no dia seguinte pra retirar o pus, tentaram curar a unha em casa mesmo,mas não teve jeito...Sua mãe precisou levá-la ao médico.
O médico olhou a unha, olhou pra ela e disse: "Ta muito inflamado!"E fez uma longa pausa.
Disso  ela já sabia, doia muito, estava roxa e cheia de pus.
E então ele voltou a falar: "Terei que arranca-la!" Mais uma pausa.
"E a anestesia não irá pegar, então terá de ser sem anestesia."
Foi ai que ela entendeu a gravidade daquela situação. Grudou em sua mãe e aquela unha foi arrancada com a ajuda de dois instrumentos que ela viu de relance...
Chorou, chorou muito agarrada à sua mãe, mas suportou.
Logo aquela unha iria crescer novamente e estaria tudo certo.

No inicio da adolescência começou a liberar essa força interna em forma de travessuras no colégio e com seus amigos mais íntimos, mas o medo ainda era presente.
Começou a escrever seu primeiro diário, e isso a ajudou muito, foi bom pra organizar seus pensamentos e era uma forma de se libertar, escrever tudo que ela achava que não podia falar... Criou códigos próprios e usava também o código "ZENIT POLAR"!!! Um diário codificado!!!!

Se interessou pela leitura logo cedo e leu seus primeiros livros:
 Fernão Capelo Gaivota e Poliana- O jogo do contente.
O primeiro falava sobre ir além dos nossos limites, o segundo sobre a treinar a ver o lado bom dos momentos ruins.
 Guardaria esses aprendizados pra vida!

Entrou pro teatro, apresentou peças com papéis pequenos, mas se sentia feliz! Tinha vontade de ser desinibida a ponto de encarar um papel principal, mas não tinha coragem nem mesmo de tentar.
Um belo dia abriu uma escola de Ballet na cidade, sua mãe a matriculou... Ficou encantada com a beleza da professora, com a dança, desejou ser igual a ela quando crescesse!
Se entregou totalmente ao ballet, encontrou seu  refúgio na dança!
Aprendeu a movimentar seu corpo como nunca havia feito, era firme e leve...lindo!...Mesmo com o desengonçado de iniciante!
Sempre gostou de tentar fazer coisas novas...Descobriu, ao rabiscar, que gostava de desenhar e colorir, esquecia do mundo fazendo isso, e o fazia muito bem!
Seus dias eram cheios, estava sempre fazendo algo, só não gostava muito de estudar e acordar cedo...

Aos 11 anos, Sophia sofreu um acidente  com o Jeep do avô ao voltarem da roça. O carro perdeu o freio numa descida, e por mais que seu avô tenha conseguido manter o controle do veículo, se machucaram.
Ela fraturou o úmero esquerdo, machucou muito o rosto, costas e perna esquerda. Ela e os primos que também machucaram muito foram levados ao João XXIII, em Belo Horizonte, 520 km de sua cidade! Seu irmão e avô que também estavam no Jeep tiveram ferimentos leves, porém, muito abalados.
 Foi uma época complicada pra ela, dormindo sentada, fazendo provas em casa, dependente de tudo, praticamente... Mas tentou manter-se calma, ver as coisas com leveza.
 Sua maior tristeza foi não poder participar da primeira apresentação do Ballet de fim de ano!
Assistiu à apresentação com o coração apertado, e chorou discretamente naquela platéia...
Haveria de ir ao ortopedista pra saber como a fratura estava. Seu pai marcou com um dos melhores ortopedistas na cidade de Curvelo, que era mais perto pra eles.
Ele olhou, tirou raio X, resolveu consertar por cima do gesso que haviam colocado no João XXIII. Acrescentou uma bola de gesso tracionando seu úmero para baixo.
Vinte dias depois teria outro retorno.
De volta ao ortopedista, novo raio X... ele não gostou do resultado.
Tirou o gesso com o braço dela ainda não totalmente calcificado, o que causou um enorme incômodo a ela. Depois, com um pequeno martelo de ponta emborrachada, bateu no local da fratura pra desfazer as pequenas partes que haviam calcificado, sem uso de anestesia. Mais uma vez Sophia estava agarrada a sua mãe, suando de dor e chorando.
Colocou então o braço dela no lugar, reduzindo a fratura... Mais um momento de dor.
Engessaram o braço dela pra cima, usando também um colete de gesso no tórax e um pedaço de madeira ajudando a sustentar o braço.
Ela so queria que tudo acabasse logo, que desse certo.
Sua mãe fez logo uma promessa nesse dia: Tudo ocorrendo bem, Sophia iria coroar Nossa Senhora do Rosário na festa do mês de junho do próximo ano...
Após uns trinta dias voltaram pra retirada do gesso.
Sophia não conseguia conter a expectativa!
Enfim, sem o gesso!... Olhou pro seu braço amarelado, fino, meio torto, sem força e menor que o outro braço.
E então a explicaram que o braço voltaria ao normal se ela fizesse exercícios com ele, mas manteria o novo comprimento e continuaria meio torto. Mas era pouca coisa, ela não se importou.
Foi fazer os exercícios com muita dificuldade! Não tinha força alguma e pouquissima flexibilidade. Chorou algumas vezes...queria passar por tudo aquilo logo.
Tudo deu certo! Hora de cumprir a promessa de sua mãe! Com asas enormes, túnica branca e dourada, cantou em latim e coroou a Nossa Senhora.
 Gostou de cantar...entrou pro Coralzinho Dom Bosco composto de pré-adolescentes e adolescentes. Cantavam nas missas aos domingos e tinha um contato com a turma mais velha. Ela se sentia bem e aprendia muito com os encontros para os ensaios.

O tempo foi passando e os meninos passaram a ser mais interessantes, os mais velhos, claro!
E logo se encantou por um deles... Augusto! Tinha uma boca e um sorriso lindo! Ela adorava aquele jeitinho dele!
Foi uma trabalheira danada pra conseguir dar seu primeiro beijo, tinha muito medo do seu pai e era insegura, mesmo tendo muita vontade de fazê-lo com o menino que gostava.
Mas, enfim, o beijo aconteceu poucos dias depois de sua primeira menstruação!
Ah! A menstruação!... Estava numa missa campal quando sentiu uma espécie de dor de barriga, correu em casa, foi ao banheiro e ali estava a calcinha e suas pernas repletas de sangue!
Se assustou inicialmente, mas se lembrou que poderia ser a menstruação, já estava na idade.
Respirou fundo, se lavou, pegou um absorvente gigante da mãe dela e se deitou sentindo muita dor.
Quando a mãe soube espalhou  aos quatro ventos: A Sophia virou mocinha!
Por várias vezes ela quase morreu de vergonha, não sabia o porque da mãe dela espalhar isso pra todo mundo!
Que importância tinha aquele "evento" que a fazia sentir dor e usar um "travesseiro" entre as pernas!?

Voltando ao primeiro beijo...
Tudo foi previamente arquitetado por ele e não teve como ela fugir, como havia feito outras vezes...
E, apesar do nervosismo, não queria fujir dessa vez!
...Estava, eles então na ala de ping-pong, pouco depois das 15h,  durante a aula de Educação Física...
Beijo salgado... ela sentiu a língua dele entrando na boca dela!...
Ficou meio sem saber o que fazer!
 Prestou atenção por uns instantes, no que ele fazia e repetiu... E sentiu então a língua dele tocar a língua dela...!
Achou estranho e gostoso!!!
 ...Pernas bambas, coração explodindo, borboletas no estômago e mais umas sensações que ela não sabia descrever, mas era bom!...
Conheceu de fato a paixão!...Foi por um tempo muito apaixonada por ele e davam sempre um jeito maluco de se encontrarem às escondidas.
No fim, seu pai descobriu o namorico (sempre tem alguém que conta essas coisas...por preocupação ou por maldade) e acabou levando uma boa surra...!!!
Mas era mais forte que ela... não demoraria muito pra se repetir!...
...Sim, sempre foi teimosa, e agora também era um pouco ousada!
O diário começou a ficar mais elaborado,  foi o inicio dos seus rabiscos de pensamentos...poemas desajeitados, mas que conseguia dizer muito sobre ela e sobre tudo que estava vivendo, sentindo...