quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Primeiras descobertas...

...E então, na capital de Minas Gerais, no início de uma tarde fria de julho no ano de 1981 ela chorou pela primeira vez nesse mundo!...
 Nascia ali uma canceriana com ascendente em escorpião...
Iria, certamente, chorar muitas outras vezes por raiva, nervosismo, tristeza, saudade, felicidade e drama!
Seus pais residiam numa cidadezinha do interior, pra onde a levaram alguns dias depois do seu nascimento.


...Sophia foi crescendo em meio a muito amor... primeira filha, primeira neta... Parecia que o mundo estava a sua espera!
 E como já era de esperar...chorou, chorou muito!!!!... Noites a fio brincando com o sono da sua mãe, que paciente e às vezes impacientemente, morta de cansaço, a mantinha no colo pra aliviar suas cólicas.
Depois chorou de fome devido o leite da sua mãe não saciá-la. E assim ganhou uma "mãe de leite", onde se esbaldava naquela mama gigante antes mesmo do filho dela matar a fome... Era gulosa e com um choro imponente!
O tempo foi passando...
Sophia nunca gostou muito de bonecas, mas se agarrava ao seu boneco Joãozinho e ao seu trator amarelo.
Adora brincar com areia, lama e qualquer coisa que se sujasse.
Vaidosa!... Andava sempre de unhas pintadas de vermelho, sua cor preferida!

Adorava  ir pra roça do seu avô nadar, comer cenoura da horta, se lambuzar de manga e seguir seu pai e seu avô por onde fossem. E ainda havia duas moradoras que faziam todas as suas vontades!...Era mesmo muito paparicada!
No final da tarde, antes de voltar a cidade, seu avô a colocava no chiqueiro, junto aos porcos, e dava banho em todos juntos de mangueira! Pra ela tudo era diversão!...

A pequena Sophia foi desenvolvendo e se tornou uma menina de voz travada, medrosa, de olhar curioso, insegura, com a imaginação aguçada, e com uma espécie de força interna que ela precisava domar. Era feliz, mas era contida, não tinha mais traços da imponência que nasceu com ela. Talvez por seu pai ser muito bravo, ela o amava, mas tinha muito medo dele.
Era um pai  carinhoso, brincalhão, rígido e  realmente muito bravo. Sua mãe... doce, carinhosa, cuidadosa e tinha seus momentos de fúria!...

Aos 7 anos viveu seu primeiro amor de infância! Era um menino lindo, de sardas, cabelos lisos e claros, boca avermelhada e super carinhoso! Trocavam balas, conversavam e brincavam juntos.
Ele a fazia sorrir, e quando o via de longe sentia suas bochechas queimarem.

Sophia descobriu sua sexualidade muito cedo, desde os seus cinco anos aproximadamente gostava de tocar seu corpo e nos momentos em que era flagrada por algum adulto, vinha, irremediavelmente, a repressão: "Isso não pode fazer!" "Tire sua mão daí!" Isso é pecado!"
Mas nunca foi muito obediente... e não via problema algum em sentir uma coisa gostosa que não sabia explicar.

Quando não estava brincando, estava dançando e cantando com direito a coreografias e microfone (pente) ou assistindo aos infinitos desenhos que passavam na TV.
Fazia pequenas maldades, como qualquer outra criança e também roubava manga, goiaba, carambola, jabuticaba... Eram frutas em demasia na sua cidade!!!! Cambuim, jambo, umbu, cagaita...

Teve uma infância agarrada a sua família, ela adorava essa coisa de ir todos os dias visitar os avós, brincar com os primos, ouvir as histórias dos tios, fazer piquenique no rio no final de semana...


As brincadeiras foram mudando... passou a gostar de ir ao rio nadar (e não se importava em ir sozinha), costurar roupas para as Barbies, brincar de restaurante e de se maquiar. Passava horas brincando sozinha, com a imaginação há mil!...
Aprendeu que era divertido ficar só em alguns momentos. Outrora brincava com os amigos de escolinha, andava de bicicleta, jogava queimada...

Ainda muito travada, medrosa e insegura...  remoía sentimentos dentro dela e acabou explodindo  algumas poucas vezes...
Uma delas, se irritou com a moça que cuidava dela, mas já tinha muita raiva acumulada... fincou um lápis na perna dela e correu chorando pro banheiro... Numa outra vez colocou fogo no cachorro de pelúcia, quase pegou fogo no quarto dos seus pais...( Foi então que passou a gostar de fogo... Cozinhava tudo, até lama! Não é a toa que leva a marca de uma queimadura no seu joelho esquerdo).
Sophia não conseguia falar as coisas boas e ruins que sentia, e não tinha espaço pra tentar fazê-lo. Seus medos, angustias, tristezas, raivas iam se remoendo dentro dela...
Levou algumas surras, quase unicamente do seu pai, e não entendia a mudança que isso traria, só a deixava com mais raiva, mais medo, mais travada...

Tentou se  socializar... participou de desfiles, ganhou como Rainha das Bonecas e Rainha do Inverno... Mas era sempre  estressante todo o processo de pedir votos e sua mãe sempre se irritava com ela, e ela  sempre chorava (escondido) de raiva e arrependimento por estar participando.
Participou de gincanas, dançou lambada, desfilou mais uma vez, dançou de paquita! Foi ficando mais desinibida...
Aos sábados fazia guizado (comida de verdade) num fogão a lenha na vizinha, onde tinha uma amiga, ou na roça, onde tinha seu próprio fogãozinho a lenha. Gostava de enfeitar os pratos e mostrar a todos antes de comer.
Num sábado de guizado foi carregar um banco de sucupira, ele escapou de suas mãos e caiu  sobre seu pé esquerdo...
Sentiu muita dor, chorou, se desesperou com aquela unha ficando roxa quase que imediatamente!
Cuidaram de sua unha, colocaram papa de farinha de mandioca no dia seguinte pra retirar o pus, tentaram curar a unha em casa mesmo,mas não teve jeito...Sua mãe precisou levá-la ao médico.
O médico olhou a unha, olhou pra ela e disse: "Ta muito inflamado!"E fez uma longa pausa.
Disso  ela já sabia, doia muito, estava roxa e cheia de pus.
E então ele voltou a falar: "Terei que arranca-la!" Mais uma pausa.
"E a anestesia não irá pegar, então terá de ser sem anestesia."
Foi ai que ela entendeu a gravidade daquela situação. Grudou em sua mãe e aquela unha foi arrancada com a ajuda de dois instrumentos que ela viu de relance...
Chorou, chorou muito agarrada à sua mãe, mas suportou.
Logo aquela unha iria crescer novamente e estaria tudo certo.

No inicio da adolescência começou a liberar essa força interna em forma de travessuras no colégio e com seus amigos mais íntimos, mas o medo ainda era presente.
Começou a escrever seu primeiro diário, e isso a ajudou muito, foi bom pra organizar seus pensamentos e era uma forma de se libertar, escrever tudo que ela achava que não podia falar... Criou códigos próprios e usava também o código "ZENIT POLAR"!!! Um diário codificado!!!!

Se interessou pela leitura logo cedo e leu seus primeiros livros:
 Fernão Capelo Gaivota e Poliana- O jogo do contente.
O primeiro falava sobre ir além dos nossos limites, o segundo sobre a treinar a ver o lado bom dos momentos ruins.
 Guardaria esses aprendizados pra vida!

Entrou pro teatro, apresentou peças com papéis pequenos, mas se sentia feliz! Tinha vontade de ser desinibida a ponto de encarar um papel principal, mas não tinha coragem nem mesmo de tentar.
Um belo dia abriu uma escola de Ballet na cidade, sua mãe a matriculou... Ficou encantada com a beleza da professora, com a dança, desejou ser igual a ela quando crescesse!
Se entregou totalmente ao ballet, encontrou seu  refúgio na dança!
Aprendeu a movimentar seu corpo como nunca havia feito, era firme e leve...lindo!...Mesmo com o desengonçado de iniciante!
Sempre gostou de tentar fazer coisas novas...Descobriu, ao rabiscar, que gostava de desenhar e colorir, esquecia do mundo fazendo isso, e o fazia muito bem!
Seus dias eram cheios, estava sempre fazendo algo, só não gostava muito de estudar e acordar cedo...

Aos 11 anos, Sophia sofreu um acidente  com o Jeep do avô ao voltarem da roça. O carro perdeu o freio numa descida, e por mais que seu avô tenha conseguido manter o controle do veículo, se machucaram.
Ela fraturou o úmero esquerdo, machucou muito o rosto, costas e perna esquerda. Ela e os primos que também machucaram muito foram levados ao João XXIII, em Belo Horizonte, 520 km de sua cidade! Seu irmão e avô que também estavam no Jeep tiveram ferimentos leves, porém, muito abalados.
 Foi uma época complicada pra ela, dormindo sentada, fazendo provas em casa, dependente de tudo, praticamente... Mas tentou manter-se calma, ver as coisas com leveza.
 Sua maior tristeza foi não poder participar da primeira apresentação do Ballet de fim de ano!
Assistiu à apresentação com o coração apertado, e chorou discretamente naquela platéia...
Haveria de ir ao ortopedista pra saber como a fratura estava. Seu pai marcou com um dos melhores ortopedistas na cidade de Curvelo, que era mais perto pra eles.
Ele olhou, tirou raio X, resolveu consertar por cima do gesso que haviam colocado no João XXIII. Acrescentou uma bola de gesso tracionando seu úmero para baixo.
Vinte dias depois teria outro retorno.
De volta ao ortopedista, novo raio X... ele não gostou do resultado.
Tirou o gesso com o braço dela ainda não totalmente calcificado, o que causou um enorme incômodo a ela. Depois, com um pequeno martelo de ponta emborrachada, bateu no local da fratura pra desfazer as pequenas partes que haviam calcificado, sem uso de anestesia. Mais uma vez Sophia estava agarrada a sua mãe, suando de dor e chorando.
Colocou então o braço dela no lugar, reduzindo a fratura... Mais um momento de dor.
Engessaram o braço dela pra cima, usando também um colete de gesso no tórax e um pedaço de madeira ajudando a sustentar o braço.
Ela so queria que tudo acabasse logo, que desse certo.
Sua mãe fez logo uma promessa nesse dia: Tudo ocorrendo bem, Sophia iria coroar Nossa Senhora do Rosário na festa do mês de junho do próximo ano...
Após uns trinta dias voltaram pra retirada do gesso.
Sophia não conseguia conter a expectativa!
Enfim, sem o gesso!... Olhou pro seu braço amarelado, fino, meio torto, sem força e menor que o outro braço.
E então a explicaram que o braço voltaria ao normal se ela fizesse exercícios com ele, mas manteria o novo comprimento e continuaria meio torto. Mas era pouca coisa, ela não se importou.
Foi fazer os exercícios com muita dificuldade! Não tinha força alguma e pouquissima flexibilidade. Chorou algumas vezes...queria passar por tudo aquilo logo.
Tudo deu certo! Hora de cumprir a promessa de sua mãe! Com asas enormes, túnica branca e dourada, cantou em latim e coroou a Nossa Senhora.
 Gostou de cantar...entrou pro Coralzinho Dom Bosco composto de pré-adolescentes e adolescentes. Cantavam nas missas aos domingos e tinha um contato com a turma mais velha. Ela se sentia bem e aprendia muito com os encontros para os ensaios.

O tempo foi passando e os meninos passaram a ser mais interessantes, os mais velhos, claro!
E logo se encantou por um deles... Augusto! Tinha uma boca e um sorriso lindo! Ela adorava aquele jeitinho dele!
Foi uma trabalheira danada pra conseguir dar seu primeiro beijo, tinha muito medo do seu pai e era insegura, mesmo tendo muita vontade de fazê-lo com o menino que gostava.
Mas, enfim, o beijo aconteceu poucos dias depois de sua primeira menstruação!
Ah! A menstruação!... Estava numa missa campal quando sentiu uma espécie de dor de barriga, correu em casa, foi ao banheiro e ali estava a calcinha e suas pernas repletas de sangue!
Se assustou inicialmente, mas se lembrou que poderia ser a menstruação, já estava na idade.
Respirou fundo, se lavou, pegou um absorvente gigante da mãe dela e se deitou sentindo muita dor.
Quando a mãe soube espalhou  aos quatro ventos: A Sophia virou mocinha!
Por várias vezes ela quase morreu de vergonha, não sabia o porque da mãe dela espalhar isso pra todo mundo!
Que importância tinha aquele "evento" que a fazia sentir dor e usar um "travesseiro" entre as pernas!?

Voltando ao primeiro beijo...
Tudo foi previamente arquitetado por ele e não teve como ela fugir, como havia feito outras vezes...
E, apesar do nervosismo, não queria fujir dessa vez!
...Estava, eles então na ala de ping-pong, pouco depois das 15h,  durante a aula de Educação Física...
Beijo salgado... ela sentiu a língua dele entrando na boca dela!...
Ficou meio sem saber o que fazer!
 Prestou atenção por uns instantes, no que ele fazia e repetiu... E sentiu então a língua dele tocar a língua dela...!
Achou estranho e gostoso!!!
 ...Pernas bambas, coração explodindo, borboletas no estômago e mais umas sensações que ela não sabia descrever, mas era bom!...
Conheceu de fato a paixão!...Foi por um tempo muito apaixonada por ele e davam sempre um jeito maluco de se encontrarem às escondidas.
No fim, seu pai descobriu o namorico (sempre tem alguém que conta essas coisas...por preocupação ou por maldade) e acabou levando uma boa surra...!!!
Mas era mais forte que ela... não demoraria muito pra se repetir!...
...Sim, sempre foi teimosa, e agora também era um pouco ousada!
O diário começou a ficar mais elaborado,  foi o inicio dos seus rabiscos de pensamentos...poemas desajeitados, mas que conseguia dizer muito sobre ela e sobre tudo que estava vivendo, sentindo...

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